VO₂ Máx: o número mais superestimado do endurance

VO₂ Máx: o número mais superestimado do endurance

E a polêmica do “101” de Kristian Blummenfelt

Se você acompanha endurance, em algum momento já ouviu isso:

“O Blummenfelt tem VO₂ de 101.”

Pausa dramática. Silêncio respeitoso. E pronto: o mito está criado.

Mas hoje eu quero fazer o caminho inverso.
Não para diminuir Kristian Blummenfelt — pelo contrário.
Quero usar esse caso para explicar por que o VO₂ máx virou um dos conceitos mais mal compreendidos do esporte de endurance moderno.

O que é VO₂ máx — de verdade?

VO₂ máx é a maior quantidade de oxigênio que o corpo consegue captar, transportar e utilizar por minuto, normalizada pelo peso corporal.

Em termos simples:

  • Pulmões → captam oxigênio
  • Coração → transporta
  • Músculos → utilizam

Ele representa o tamanho do motor aeróbio.

E sim: sem um motor grande, ninguém chega à elite.

Mas aqui está o primeiro erro comum: motor grande não significa carro mais rápido.

Onde o VO₂ máx realmente importa

O VO₂ máx é:

  • Um pré-requisito
  • Um limitador superior
  • Um bom filtro inicial de talento

Ele responde à pergunta: “Essa pessoa tem capacidade fisiológica para competir em alto nível?”

Mas não responde:

  • Quem ganha a prova
  • Quem sustenta ritmo
  • Quem corre melhor no calor
  • Quem aguenta 7h de Ironman
  • Quem chega inteiro nos últimos 10 km

E é aqui que começa o problema do “101”.

O número que virou manchete

Para colocar em perspectiva:

  • Homem não treinado: 35–45
  • Atleta treinado: 60–70
  • Elite endurance: 75–90
  • Outliers históricos (esqui nórdico): 90–97

101 ml·kg⁻¹·min⁻¹ não é apenas alto.
É estatisticamente fora da curva, até para os maiores freaks já documentados.

Então a pergunta correta não é:

“Ele tem ou não tem 101?”

A pergunta correta é:

“Em que contexto esse número apareceu?”

O que quase nunca é explicado quando se fala desse VO₂

1. Protocolo de teste

VO₂ máx muda conforme:

  • Esteira vs bike
  • Rampa curta vs longa
  • Incrementos agressivos
  • Critério de platô (ou ausência dele)

Muitos testes medem VO₂ pico, não VO₂ máx verdadeiro.

E isso muda tudo.

2. Peso corporal usado no cálculo

VO₂ é expresso em ml/kg/min.

Pequenas variações:

  • Desidratação
  • Peso mínimo de competição
  • Erro de aferição

1–2 kg fazem o número “explodir”.

3. Erro de equipamento e calibração

Mesmo laboratórios excelentes têm:

  • Vazamento de máscara
  • Delay de sensores
  • Erro acumulado em altas ventilações

A margem realista é ±3–5%.

Em valores extremos, isso é enorme.

4. Comunicação de bastidor ≠ dado científico

Esse número nunca apareceu:

  • Em paper revisado
  • Com protocolo público
  • Com repetição independente

O que temos é relato, não evidência formal.

Isso não invalida o atleta.
Só invalida a manchete.

O paradoxo: Blummenfelt não vence por causa do VO₂

E aqui vem a parte mais importante.

Se o diferencial de Blummenfelt fosse apenas VO₂, ele:

  • Não seria tão consistente
  • Não dominaria provas longas
  • Não teria essa “durabilidade” absurda

O que o torna dominante é a combinação de fatores:

1. Fração sustentável do VO₂

Ele sustenta percentuais altíssimos do VO₂ por muito tempo.

Muitos têm VO₂ alto.
Poucos conseguem usá-lo.

2. Economia mecânica

Ele transforma oxigênio em velocidade com baixo custo energético.

Dois atletas podem consumir o mesmo O₂.
Um vai mais rápido.

3. Limiar de lactato extremamente alto

Ele consegue operar próximo do limite sem “quebrar”.

Isso decide provas muito mais do que VO₂ máx isolado.

4. Durabilidade metabólica

A capacidade de:

  • Manter economia após horas
  • Resistir à fadiga neuromuscular
  • Continuar eficiente quando outros colapsam

Isso não aparece em testes de VO₂.

Por que o mito do VO₂ é perigoso?

Porque ele cria três distorções:

  1. Atletas acham que “não nasceram para isso”
  2. Treinadores perseguem números, não performance
  3. O público confunde ciência com espetáculo

O endurance real é menos sexy: é eficiência, repetição, tolerância ao desconforto e disciplina brutal.

A leitura mais honesta do caso Blummenfelt

A visão mais aceita hoje é simples:

  • Blummenfelt provavelmente tem VO₂ muito alto (talvez 90–95)
  • Associado a uma economia fora da curva
  • Um limiar altíssimo
  • E uma durabilidade rara

O “101”:

  • Pode ter sido VO₂ pico
  • Pode ter sido um teste específico
  • Pode ter sido um valor isolado
  • Pode ter sido exagerado na comunicação

Nada disso muda o fato essencial: ele é um dos atletas de endurance mais completos já vistos.

Conclusão

  • VO₂ máx abre a porta
  • Economia, limiar e durabilidade ganham a corrida
  • Números extremos fazem manchete
  • Mas o corpo que aguenta o caos vence provas

E talvez essa seja a maior lição do caso Blummenfelt: não idolatre o número. Entenda o sistema.

Read more