Hidrogel funciona ou é fake news?

Hidrogel funciona ou é fake news?

Nos últimos anos, bebidas e géis à base de hidrogel passaram a ser promovidos com duas promessas centrais na nutrição esportiva de endurance:

  1. melhor absorção de carboidratos e
  2. menor estresse gastrointestinal (GI) em comparação com bebidas tradicionais de carboidrato.

Uma análise cuidadosa da literatura científica revisada por pares, no entanto, mostra que essas alegações não são sustentadas de forma consistente pelos dados. A seguir, examinamos criticamente três pontos principais: absorção de carboidratos, sintomas gastrointestinais e a plausibilidade fisiológica do mecanismo do hidrogel.

Alegação 1: Hidrogéis melhoram a absorção de carboidratos

A hipótese central do hidrogel é que carboidratos “encapsulados” em uma matriz de alginato e pectina atravessariam o estômago mais rapidamente, chegando ao intestino delgado “protegidos”, o que teoricamente aumentaria a absorção e a oxidação exógena de carboidratos durante o exercício.

O que mostram os estudos:

  • Não há aumento da oxidação exógena de carboidratos.
    Ensaios clínicos com marcadores isotópicos mostram que bebidas com carboidratos em forma de hidrogel apresentam taxas de oxidação exógena semelhantes às de bebidas tradicionais com a mesma composição de carboidratos (ex.: maltodextrina + frutose). Em outras palavras, o hidrogel não aumenta a quantidade de carboidrato efetivamente utilizada pelo músculo durante o exercício.
  • Comparações diretas não mostram vantagem metabólica.
    Estudos em corrida e ciclismo que compararam bebidas idênticas em concentração e tipo de carboidrato — diferindo apenas pela presença do hidrogel — não encontraram diferenças significativas em glicemia, oxidação de substratos ou desempenho. Quando a oxidação exógena foi maior em alguns estudos, isso se explicou pelo uso de carboidratos multi-transportáveis (glicose + frutose), e não pelo hidrogel em si.

Conclusão:
Quando a formulação é corretamente pareada, o hidrogel não melhora a absorção nem a oxidação de carboidratos em relação a bebidas convencionais bem formuladas.

Alegação 2: Hidrogéis reduzem o desconforto gastrointestinal

Outra promessa comum é que o hidrogel permitiria altas ingestões de carboidrato com menor incidência de náusea, distensão, refluxo ou diarreia — um problema frequente em provas longas.

O que a evidência mostra:

  • Sintomas GI são semelhantes entre hidrogel e bebidas tradicionais.
    Estudos controlados em corrida e ciclismo relatam que a frequência e a intensidade de sintomas gastrointestinais são estatisticamente iguais entre bebidas com hidrogel e bebidas tradicionais com a mesma carga de carboidratos.
  • Não há redução consistente de desconforto.
    Em alguns estudos, praticamente todos os atletas relataram algum grau de desconforto GI em ambas as condições. Casos isolados de melhora ou piora não seguem um padrão sistemático que favoreça o hidrogel.
  • Revisões e meta-análises confirmam a ausência de benefício.
    Revisões sistemáticas recentes concluem que não há evidência consistente de que a adição de alginato/pectina a bebidas de carboidrato reduza sintomas gastrointestinais durante o exercício.

Conclusão:
Até o momento, hidrogéis não demonstraram vantagem clara em conforto gastrointestinal quando comparados a bebidas tradicionais de carboidrato bem formuladas.

Alegação 3: O mecanismo fisiológico do hidrogel é realmente relevante?

Esvaziamento gástrico mais rápido ≠ melhor desempenho

Alguns estudos mostram que bebidas com hidrogel podem, de fato, esvaziar mais rapidamente do estômago. Contudo, isso não se traduziu em:

  • maior absorção intestinal,
  • maior oxidação de carboidratos,
  • menor desconforto GI,
  • nem melhor desempenho.

Por quê?
Porque, em exercícios de endurance, o principal gargalo não é o estômago, mas sim:

  • a capacidade de absorção intestinal (transportadores SGLT1 e GLUT5),
  • e o limite de utilização metabólica dos carboidratos ingeridos.

Se o intestino já está operando próximo do seu limite, acelerar a saída do estômago não resolve o problema central.

Efeitos no desempenho: o teste final

No fim das contas, a pergunta mais importante é simples:
👉 hidrogéis fazem atletas performarem melhor?

Resposta baseada nos dados atuais: não.

  • Testes de desempenho (time trials, tempo até exaustão, potência média) não mostram melhora significativa com hidrogel quando comparado a bebidas tradicionais isocalóricas.
  • Meta-análises recentes confirmam que não há diferença estatisticamente significativa no desempenho de endurance com o uso de hidrogel.

Em termos práticos, os hidrogéis igualam, mas não superam, estratégias tradicionais de ingestão de carboidratos multi-transportáveis.

Considerações finais: o que realmente importa para o atleta de endurance

A literatura científica atual indica que:

  • O fator decisivo é o tipo e a quantidade de carboidrato, não a forma “hidrogel”.
  • Misturas de glicose + frutose, em doses adequadas (60–90+ g/h), continuam sendo a estratégia mais bem sustentada por evidências.
  • Treinamento do intestino, ajuste de osmolaridade, volume de líquido e sódio são muito mais determinantes para tolerância GI do que a presença de hidrogel.
  • Hidrogéis não quebram os limites fisiológicos de absorção nem resolvem automaticamente problemas gastrointestinais.

Isso não significa que produtos à base de hidrogel sejam prejudiciais — apenas que não entregam os benefícios exclusivos que muitas vezes lhes são atribuídos.

Conclusão

Até o momento, a ciência revisada por pares não sustenta as alegações de que hidrogéis:

  • melhoram a absorção de carboidratos,
  • reduzem o estresse gastrointestinal,
  • ou aumentam o desempenho em endurance,

quando comparados a bebidas tradicionais de carboidrato bem formuladas.

Para atletas focados em performance, o caminho continua sendo simples, embora exigente:
👉 quantidade adequada de carboidrato,
👉 mistura correta de açúcares,
👉 treino do trato gastrointestinal,
👉 e estratégia testada em treino antes da prova.

O resto é, até que provem o contrário, mais narrativa do que fisiologia.

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