A Ciência por Trás das Proporções de Carboidrato
Por que 2:1 não é igual a 1:0,8 — e por que isso importa de verdade
Durante anos, falamos sobre “quanto” carboidrato ingerir por hora no endurance.
60 g/h. 90 g/h. 120 g/h.
Mas a pergunta mais sofisticada não é apenas quanto.
É qual proporção.
E quando começamos a falar de 90–120 g/h, a proporção entre glicose e frutose deixa de ser detalhe e passa a ser fator limitante de performance.
O Gargalo Não Está no Músculo. Está no Intestino.
Quando um atleta consome carboidrato durante o exercício, o limite inicial não é a capacidade do músculo de oxidar glicose.
É o transporte intestinal.
Existem dois principais transportadores relevantes:
- SGLT1 → transporta glicose e maltodextrina
- GLUT5 → transporta frutose
O SGLT1 satura aproximadamente em ~60 g/h de glicose.
Acima disso, o excesso permanece no lúmen intestinal → aumentando risco de desconforto gastrointestinal.
Foi isso que levou à clássica recomendação histórica de ~60 g/h.
Mas então veio a pergunta decisiva:
E se utilizarmos dois transportadores simultaneamente?
A Virada: Carboidratos Multi-Transportáveis
Estudos conduzidos por Jeukendrup e colaboradores demonstraram que combinar glicose + frutose aumenta a taxa de oxidação exógena acima de 1 g/min (60 g/h), podendo atingir 1,5–1,8 g/min (~90–108 g/h).
Quando frutose é adicionada:
- Parte do fluxo entra via GLUT5
- A glicose continua via SGLT1
- O fígado converte frutose em glicose/lactato
- A disponibilidade sistêmica aumenta
Meta-análises recentes (incluindo trabalhos indexados como PMID: 36107234) reforçam que:
- Misturas glicose+frutose melhoram performance comparadas à glicose isolada
- A oxidação exógena é maior
- O desconforto GI tende a ser menor quando a carga é dividida entre transportadores
Isso é particularmente relevante quando falamos de ingestões ≥90 g/h.
2:1 — O Padrão Clássico
A proporção 2:1 (glicose:frutose) foi por muito tempo considerada ideal.
Por quê?
Porque:
- Maximiza o uso do SGLT1 (~60 g/h)
- Complementa com ~30 g/h de frutose
- Totaliza ~90 g/h com boa tolerância
Diversos ensaios controlados demonstraram melhor performance em TT quando comparado a glicose isolada.
Mas conforme atletas começaram a testar 100–120 g/h, uma nova questão surgiu:
O 2:1 ainda é o melhor equilíbrio?
1:0,8 — Ajustando Para Taxa Máxima de Oxidação
Estudos mais recentes mostram que proporções próximas de 1:0,8 (ou ~1:1) podem:
- Aumentar ainda mais a oxidação exógena
- Reduzir a carga relativa sobre SGLT1
- Melhorar conforto GI em ingestões altas
Em protocolos de 120 g/h, proporções mais próximas de 1:0,8 apresentaram:
- Maior taxa de carboidrato oxidado
- Menor sensação de distensão abdominal
- Melhor manutenção de potência tardia
Fisiologicamente faz sentido: ao equilibrar melhor o uso dos transportadores, reduzimos saturação localizada.
Isso não significa que 2:1 esteja “errado”.
Significa que, conforme a ingestão sobe, a proporção passa a importar mais.
O Que Realmente Está em Jogo: Taxa de Entrega Energética
Performance em endurance competitivo depende de:
- Manter alta taxa de oxidação de carboidrato
- Minimizar depleção precoce de glicogênio
- Sustentar intensidade próxima ao limiar
Gordura é abundante, mas lenta.
Carboidrato é limitado, mas rápido.
Quando você consegue oxidar 1,7–1,8 g/min de carboidrato exógeno, você:
- Preserva glicogênio muscular
- Mantém maior capacidade de sprint tardio
- Reduz declínio de potência nas horas finais
A proporção correta é o que permite atingir esse patamar sem colapsar o intestino.
E Onde Entra a Palatinose (Isomaltulose)?
A isomaltulose é um dissacarídeo de digestão mais lenta, com menor índice glicêmico.
Ela:
- Fornece liberação mais gradual de glicose
- Promove menor pico insulinêmico
- Pode melhorar estabilidade glicêmica
- Apresenta boa tolerabilidade gastrointestinal
Embora sua taxa de oxidação seja inferior à da glicose/maltodextrina, em blends estratégicos pode:
- Modular a curva glicêmica
- Reduzir flutuações abruptas
- Contribuir para melhor estabilidade energética em esforços prolongados
Ela não substitui glicose+frutose em altas taxas de ingestão.
Mas pode ser uma ferramenta interessante quando o objetivo é equilíbrio metabólico e conforto GI.
Conclusão: Proporção Não É Detalhe Técnico — É Estratégia
Quando falamos de 30–40 g/h, proporção importa pouco.
Quando falamos de 90–120 g/h, proporção é decisiva.
A ciência atual sustenta que:
- Carboidratos multi-transportáveis são superiores à glicose isolada
- Proporções próximas de 1:0,8 podem otimizar oxidação em altas ingestões
- A escolha correta influencia diretamente performance e tolerância
O debate sobre “quanto” evoluiu.
Agora o debate relevante é:
Qual proporção permite entregar energia na velocidade que o músculo exige?
E essa resposta está no intestino — não apenas no músculo.
Referências
- Jentjens RLPG, Jeukendrup AE. High rates of exogenous carbohydrate oxidation from a mixture of glucose and fructose ingested during prolonged cycling exercise. J Appl Physiol. 2005;99(3):1045–1052.
- Jentjens RLPG, Moseley L, Waring RH, Harding LK, Jeukendrup AE. Oxidation of combined ingestion of glucose and fructose during exercise. J Appl Physiol. 2004;96(4):1277–1284.
- Currell K, Jeukendrup AE. Superior endurance performance with ingestion of multiple transportable carbohydrates. Med Sci Sports Exerc. 2008;40(2):275–281.
- Smith JW, Pascoe DD, Passe DH, Ruby BC, Stewart LK, Baker LB, et al. Curvilinear dose-response relationship of carbohydrate ingestion and endurance performance. Med Sci Sports Exerc. 2010;42(9):1779–1787.
- Jeukendrup AE. Carbohydrate and exercise performance: the role of multiple transportable carbohydrates. Curr Opin Clin Nutr Metab Care. 2010;13(4):452–457.
- Rowlands DS, Swift M, Ros M, Green JG. Composite versus single transportable carbohydrate solution enhances endurance performance. J Appl Physiol. 2012;112(5):789–798.
- O’Brien WJ, Rowlands DS. Fructose–maltodextrin ratio influences exogenous carbohydrate oxidation and gastrointestinal comfort. Appl Physiol Nutr Metab. 2011;36(5):639–647.
- Podlogar T, Wallis GA. New horizons in carbohydrate research and application for endurance athletes. Sports Med. 2022;52(Suppl 1):5–17. PMID: 36107234.
- Cox GR, Clark SA, Cox AJ, Halson SL, Hargreaves M, Hawley JA, et al. Daily training with high carbohydrate availability increases exogenous carbohydrate oxidation during endurance cycling. J Appl Physiol. 2010;109(1):126–134.
- König D, Theis S, Kozianowski G, Berg A. Postprandial substrate use in endurance exercise after isomaltulose ingestion. Eur J Nutr. 2016;55(2):569–578.
- Maunder E, Kilding AE, Plews DJ. Substrate utilization and endurance performance following ingestion of isomaltulose versus sucrose. Nutrients. 2018;10(11):E1647.
- Jeukendrup AE. Training the gut for athletes. Sports Med. 2017;47(Suppl 1):101–110.
- Burke LM, Hawley JA, Wong SHS, Jeukendrup AE. Carbohydrates for training and competition. J Sports Sci. 2011;29(Suppl 1):S17–S27.